Alunos de baixa renda são minoria no Universidade Gratuita

Alunos de baixa renda são minoria no Universidade Gratuita

Apesar do discurso de inclusão social adotado pelo governo Jorginho Mello (PL), os programas Universidade Gratuita e FUMDESC têm beneficiado majoritariamente alunos fora do perfil de vulnerabilidade social. Relatório técnico do Tribunal de Contas do Estado, ao qual esta coluna teve acesso, revela que apenas 13,06% dos bolsistas estão inscritos no Cadastro Único para Programas Sociais (CadÚnico) — cadastro federal destinado a famílias com renda mensal de até meio salário mínimo por pessoa.

A auditoria do TCE desmonta as declarações oficiais e aponta contradições entre a legislação vigente e a execução dos programas. “Atualmente, os programas contam com 4.176 alunos beneficiados inscritos no CadÚnico, o que representa 13,06% do total de beneficiados com matrícula ativa”, destaca o relatório. Esses dados evidenciam o afastamento entre a proposta original e a prática adotada pelo governo.

De acordo com os auditores, a legislação determina que a contrapartida oferecida pelas instituições universitárias conveniadas deve ser obrigatoriamente destinada a estudantes inscritos no CadÚnico, conforme o art. 14, IV, da Lei Complementar nº 831/2023, regulamentada pelo Decreto Estadual nº 450/2024. Contudo, essa exigência “na prática não é cumprida”, o que “desmonta todos os argumentos do atual governo”. Também são apontadas diversas irregularidades graves devido à ausência de fiscalização ativa.

Trecho do decreto estabelece que:

“V – Para participar do edital, o estudante deverá cumprir os seguintes requisitos:

  • comprovar hipossuficiência por meio da apresentação do comprovante de inscrição no Cadastro Único para Programas Sociais (CadÚnico), atualizado há no máximo 24 meses à data de lançamento do edital;
  • comprovar a conclusão do ensino médio em escola pública catarinense;
  • atender ao disposto no inciso II do art. 6º da Lei Complementar nº 831, de 2023;

V – O critério de classificação para seleção dos inscritos no edital será a renda bruta per capita declarada no CadÚnico, da menor para a maior.”

Entretanto, a aplicação da lei é enfraquecida por brechas legais que permitem o acesso às bolsas a alunos com renda per capita de até quatro salários mínimos nos cursos gerais, e até oito salários mínimos no curso de Medicina — alteração promovida por Medida Provisória do governo, apresentada como avanço, mas sem impacto prático na inclusão social. “A distorção”, aponta o relatório, “é que houve aumento de beneficiados inscritos no CadÚnico, embora a maioria (86,94%) dos alunos matriculados atualmente não cumpra os requisitos de baixa renda”.

Para os técnicos do Tribunal, a diferença entre os critérios de renda explica o cenário. “Uma possível explicação é a limitação da renda familiar per capita para inscrição nos programas: enquanto o CadÚnico permite até meio salário mínimo per capita, Universidade Gratuita e FUMDESC autorizam até quatro salários mínimos, ou oito no caso de Medicina, ambos per capita. Essa diferença pode ter atraído um público de maior renda, afastando o foco nas famílias de baixa renda”, registra o relatório.

O documento conclui que, embora os programas não exijam a inscrição no CadÚnico como critério obrigatório para concessão das bolsas em geral, ela é exigida para as contrapartidas das universidades. Na prática, porém, o programa tem sido usado como ferramenta de marketing, com pouca efetividade na promoção da inclusão educacional real.

A auditoria evidencia a necessidade urgente de revisão dos critérios de acesso e, principalmente, da fiscalização da execução do Universidade Gratuita, sob risco de que a política pública — que deveria priorizar os mais vulneráveis — esteja financiando majoritariamente quem não necessita.

Missão

Alguns deputados afirmam que a missão da Acafe à Espanha, França e Itália ocorre em um momento inoportuno, diante da crise instalada pelo programa Universidade Gratuita. Eles consideram que o momento exige presença em Santa Catarina para discutir, junto à Secretaria de Estado da Educação, medidas que minimizem os problemas apontados pelo Tribunal de Contas.

Resposta

Um reitor participante da missão, sob condição de anonimato, informou que a viagem foi agendada há cerca de quatro meses e que, mesmo na Europa, os reitores acompanham os desdobramentos relacionados ao programa. Destacou ainda a importância das missões para aprimoramento técnico e para firmar parcerias com universidades estrangeiras. Segundo ele, as universidades, de forma individual, protocolarão pedido de acesso ao relatório completo, incluindo a lista dos CPFs das pessoas sob suspeita.

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