O dilema da ponte entre Tocantins e Pará

O dilema da ponte entre Tocantins e Pará

Ao contrário do que afirma uma publicação no Instagram, as obras da ponte sobre o Rio Araguaia, que liga São Geraldo do Araguaia (PA) a Xambioá (TO), não estão paralisadas há três anos, período correspondente à gestão do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT). Um vídeo narrado supostamente por um morador da região alega que o governo Jair Bolsonaro (PL) teria construído a ponte, restando apenas as “cabeceiras” para serem finalizadas no governo atual, o que também é falso.

Em notícia divulgada pelo governo federal em 8 de agosto de 2022, ainda na gestão Bolsonaro, foi informado que as obras da ponte estavam com 70% de execução. Na imagem publicada pelo Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes (DNIT), observa-se que a parte central da ponte possui apenas os pilares de sustentação, sem a pista.

Outra publicação do governo federal, de dezembro de 2022, indica que a infraestrutura submersa estava 100% concluída, com 93,93% dos pilares e travessas e 84,73% do trecho convencional executados, sem detalhar o percentual total da obra.

Em 2024, o DNIT anunciou que a ponte estava 99,16% finalizada. Embora pessoas e veículos já possam acessar a estrutura a partir de Xambioá — inclusive vídeos mostram moradores caminhando sobre a ponte —, ainda não é possível atravessar de uma cidade a outra devido à ausência dos acessos no lado paraense. Segundo a Secretaria de Comunicação (Secom), em 2024, o empreendimento completo, incluindo estrutura e acessos, estava 87,2% concluído.

O Comprova verificou imagens de 2022 e 2025 no Google Street View e registros por satélite na plataforma Copernicus, da União Europeia, para ilustrar a evolução da obra.

Um dos principais obstáculos para concluir os acessos é o processo de desapropriação e indenização dos moradores próximos ao local. O DNIT informou ao Comprova que contratou os serviços de encabeçamento da ponte em 2023 e que desde então estão em andamento os processos de desapropriação, conduzidos por meio de conciliações judiciais.

Na parte tocantinense, o processo de conciliação foi finalizado no primeiro semestre de 2025. No lado paraense, as primeiras audiências estão agendadas para 6 e 7 de agosto. O DNIT reforça que está empenhado na conclusão das obras e trabalha para garantir a funcionalidade da ponte ainda em 2025.

O perfil pertence ao radialista Jiripoca da Positiva, que conta com 89,4 mil seguidores. Em sua descrição, ele se apresenta como “radialista e ex-chefe executor da unidade avançada do Incra de São Geraldo do Araguaia, Pará”. Jiripoca costuma publicar conteúdos sobre a ponte, geralmente elogiando Bolsonaro e criticando Lula.

Em uma publicação, escreveu: “[es]tamos juntos sempre capitão bolsonarro” (sic), demonstrando apoio ao ex-presidente no mesmo dia em que ele foi alvo de operações da Polícia Federal. Até o momento desta verificação, o vídeo investigado acumula 29,9 mil visualizações.

Contatado pelo Comprova, o autor afirmou que a empresa contratada por Bolsonaro concluiu os serviços previstos. Segundo ele, a gestão anterior entregou a ponte com 82% concluída, faltando o vão central e mais dois vãos de 37 metros. Por fim, afirmou que o governo Lula paralisou os trabalhos no empreendimento.

A publicação utiliza estratégias emocionais para engajar o público, com linguagem informal que cria proximidade (“meus amigos e minhas amigas”, “meu filho”) e expressões dramáticas como “aqui dói no coração” e “é uma tristeza”, que despertam indignação.

O contraste entre “nosso presidente Bolsonaro” (apresentado de forma positiva) e o “desgoverno” atual (classificado como incompetente) evidencia um viés político claro. Além disso, o vídeo incentiva diretamente o compartilhamento do conteúdo com frases como “compartilhe para o Brasil e o mundo”, ampliando seu alcance e reforçando seu apelo emocional.

A ponte sobre o Rio Araguaia é uma reivindicação antiga dos dois estados, especialmente para facilitar o escoamento da produção agrícola no Matopiba, região que engloba Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia. Atualmente, a travessia de veículos e cargas é feita por balsas, causando longas filas e aumento no tempo de viagem.

A construção foi autorizada em 2017, durante o governo Michel Temer (MDB), com custo estimado inicial de R$ 132 milhões.

Porém, a obra só começou em abril de 2020, após atrasos causados por disputas judiciais. Na ocasião, o valor foi reajustado para R$ 157 milhões, com previsão inicial de entrega para setembro de 2022, prazo que não foi cumprido.

Em 2022, o valor estimado já era de R$ 193,1 milhões. Em matéria do Governo Federal de março daquele ano, durante visita técnica de Bolsonaro ao local,

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