
Estelionatos virtuais
Dados do Anuário Brasileiro de Segurança Pública, divulgado na quinta-feira (22), revelam que Santa Catarina registrou 72.834 casos de estelionato virtual no último ano, mantendo-se como o estado com o maior número absoluto desse tipo de crime no país. Esse número representa um aumento de 9,5% em relação a 2023, quando foram contabilizadas 65.445 ocorrências.
Além disso, Santa Catarina apresenta a maior taxa de estelionatos virtuais por 100 mil habitantes no Brasil: 903,8, quase cinco vezes superior à média nacional (200,6). O estado também ocupa a quarta colocação na taxa geral de estelionatos (incluindo os não virtuais), com 1.306,9 casos por 100 mil habitantes – atrás apenas do Distrito Federal (1.681,3), São Paulo (1.744,0) e Paraná (1.339,5).
Segundo o delegado Paulo Hakim, responsável pela Delegacia de Combate a Estelionatos da Capital, o ambiente virtual tornou-se um terreno fértil para criminosos:
— Há uma migração de criminosos do ambiente físico para o digital, motivada pela percepção de maior lucratividade e menor risco, tanto de exposição quanto de prisão, comparado aos delitos tradicionais — explica.
De acordo com Carlos Roberto Moratelli, professor da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) e especialista em segurança de dados, a elevada conectividade e infraestrutura digital do estado também contribuem para o aumento dos casos.
— Santa Catarina está entre os estados com os melhores indicadores sociais e um alto PIB per capita, o que normalmente se traduz em maior penetração digital e uso de serviços online. Quanto mais pessoas conectadas, mais oportunidades para golpes — destaca.
O especialista ressalta ainda a eficácia na detecção e registro desses crimes no estado:
— Órgãos como Procon e Polícia Civil têm intensificado campanhas de alerta sobre golpes, desde bilhetes premiados falsos até cobranças indevidas, o que incentiva mais denúncias e eleva as estatísticas. Em outros estados, pode haver subnotificação. Por exemplo, São Paulo não diferencia crimes virtuais dos comuns em seus registros, dificultando a mensuração precisa da modalidade digital — afirma o professor.
Em todo o Brasil, foram registrados 281.206 estelionatos virtuais em 2024, um aumento de 17% em relação a 2023. Santa Catarina responde sozinha por 25,9% desse total.
Após Santa Catarina, o segundo estado com maior número absoluto de casos é Minas Gerais, com 53.911 ocorrências, seguido por Mato Grosso (21.016). Em termos de taxa por 100 mil habitantes, Rondônia (435,1) e Espírito Santo (488,3) aparecem logo após.
Segundo o professor Carlos Roberto Moratelli, esse fenômeno está diretamente ligado à inclusão digital.
— Cada vez mais pessoas têm acesso à internet, mas muitas ainda não têm preparo adequado para identificar e se proteger contra golpes digitais. Antes, o criminoso precisava agir nas ruas; hoje, com o vasto número de vítimas potenciais online, surge o criminoso “home office”, que comete delitos sem sair de casa.
- Phishing e golpes bancários: o setor financeiro (incluindo Pix) e as fintechs são os principais alvos. Fraudes baseadas em engenharia social, utilizando mensagens falsas, tornaram-se mais sofisticadas com o uso de IA generativa — incluindo deepfakes e simulações de voz para enganar as vítimas.
- Ransomware e sequestro de dados: cresce o número de ataques em que criminosos invadem sistemas e sequestram dados, afetando até órgãos públicos e grandes empresas.
- Crimes digitais contra menores: abuso sexual infantil online e cyberbullying entre crianças e adolescentes também apresentam aumento expressivo.
- Ataques a serviços de telecomunicações e nuvem: empresas de telecomunicações, governo, educação e saúde têm sido alvo de brechas exploradas com apoio da IA e das novas redes 5G.













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